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Gaviões Asa-de-telha

Gaviões-asa-de-telha integrados à selva
Incluídos no rol de aves ameaçadas de extinção, os gaviões asa-de-telha, ainda que poucos, estão reprodutivamente ativos na região

Por Belisa Barga

Santos e Cubatão abrigam as únicas populações reprodutivamente ativas dessas aves de rapina do território paulista. Na verdade, os gaviões asa-de-telha (Parabuteo unicinctus) foram redescobertos na Baixada Santista por volta de 1989, porém é provável que durante muitos anos não tenham sido identificados como sendo dessa espécie. Em 2006, durante algumas verificações preliminares para instalação de um novo terminal na Ilha Barnabé, biólogos contratados pela Embraport, empresa de terminais portuários, constataram a presença dessas aves de rapina ameaçadas de extinção. Isso motivou a empresa a realizar estudos sobre elas, que resultou em um programa inédito no Brasil intitulado Projeto Gavião-asa-de-telha.
A Embraport e a empresa de consultoria ambiental Probiota elaboraram e desenvolveram um trabalho pioneiro no Brasil, que consiste em monitorar as aves por meio do sistema de rádio-telemetria VHF, o que possibilitou obter informações sobre o deslocamento, área de uso e pontos de nidificação das aves.
Entre os anos de 2007 e 2010, dez gaviões asa-de-telha foram capturados e tiveram os transmissores, que pesam cerca de 3% da biomassa da ave, acoplados em seu dorso.  “Conseguimos registrar os locais onde eles caçam e reproduzem, ou seja, a área de uso, locais onde desenvolvem atividades vitais para sua sobrevivência. Cada transmissor possui uma frequência específica, semelhante à das rádios FM e, emite sinais distintos, o que permite o monitoramento individual”, diz o doutor em ecologia e especialista em aves de rapina e rádio-telemetria Marco Granzinolli, responsável técnico da Probiota pelo projeto da empresa de terminais.
 

A estimativa, de acordo com o levantamento, é de que haja de 20 a 22 aves, uma população pequena, mas, aparentemente, estável. “Existem indivíduos nas áreas do rio Sandi, Ilha Diana, Ilha Barnabé, Ilha dos Bagres, Cubatão, rios Cascalho e Casqueiro. Os gaviões jovens, sem territórios estabelecidos, deslocaram-se em ambas as margens, desde a Embraport até a Usiminas”, explica.
Outra informação obtida durante a pesquisa foi sobre os tipos de ambiente onde vivem os gaviões asa-de-telha. São áreas cobertas por gramíneas, herbáceas, arbustos ou árvores esparsas, principalmente na transição entre o mangue e a restinga, ou entre as ilhotas de restingas com áreas abertas ou semiabertas que sofrem ação das marés. Disse Marco: “Essas últimas áreas parecem ser os habitats principais para a espécie na região. É de suma importância a manutenção de tais meios do estuário de Santos-Cubatão, principalmente na margem esquerda do porto e na Ilha dos Bagres e Sítio Sandi”.
Atualmente, nenhuma das aves segue acompanhada com a emissão de sinais, uma vez que os equipamentos dependem de bateria, cuja vida útil é de cerca de um ano. Segundo Marco, a próxima fase será definida pelo Ibama a partir das propostas de estratégias para conservação das espécies que foram apresentadas nesse semestre. “O programa cumpriu de maneira muito eficiente a primeira fase do acompanhamento por transmissores VHF”.
A empresa Embraport pretende, a partir da segunda fase, elaborar e divulgar campanhas sobre a preservação dos gaviões, a fim de levar conhecimento sobre o tema para toda a região.


Proximidade
É possível encontrar um casal da espécie, nidificando, em plena área urbana de Santos. Alunos do Colégio do Carmo e moradores da Ponta da Praia são privilegiados, pois são vizinhos das aves raras. “De acordo com as observações, parece que é a primeira vez que o casal de gaviões que habita uma árvore no pátio da escola reproduz duas vezes seguidas. É um privilégio nosso pátio ser um abrigo seguro para que a espécie se multiplique e garanta futuras gerações de gaviões”, explica o biólogo e professor Andreth Ricardo de Oliveira.
Há três anos, quando integrou o quadro de docentes do colégio, o biólogo passou a observá-las, mas, segundo relatos da direção, esses gaviões são inquilinos da árvore na escola há pelo menos dez anos. “É um espetáculo vê-los pousados, em seus rasantes ou ouvir sua vocalização, algo incomum de ser ouvir na cidade”, diz.
Uma das possíveis causas para o aparecimento da espécie na selva de pedra é a diminuição das áreas de restingas e manguezais, suprimidas pela expansão portuária e industrial, além das ocupações desordenadas, que fazem com que as aves migrem de seus habitats para nidificar. Aqui na região, a principal ameaça para essas populações é a degradação do ambiente. O biólogo explica que fatores como o uso de pesticidas ou substâncias nocivas às aves podem prejudicar a reprodução por causar infertilidade ou redução da espessura da casca do ovo.
Apesar de consideradas bastante ariscas, a aproximação humana é o que menos incomoda o casal de rapinas. Tanto que, até hoje, não existem registros de investidas das aves contra alunos ou moradores do bairro.

 
Ataques mesmo, só durante as caçadas. Andreth explica que essa espécie caça conforme a disponibilidade de alimento, coincidindo, muitas vezes, com o período reprodutivo de suas principais presas, sendo esse ciclo mais comum entre a primavera e o outono.
Até julho do ano passado, havia dois ovos no ninho e a fêmea estava indócil com o filhote da ninhada anterior, numa possível tentativa de expulsão do território, já que esse jovem poderia ser um fator de risco para a nova ninhada.
 
No início de agosto, essa ave jovem já não era mais vista, possivelmente por ter atingido idade suficiente para buscar seu próprio alimento. “O gavião jovem aprendeu a caçar pombos domésticos junto aos pais, por ser o alimento mais abundante na cidade. Normalmente, após aprenderem a voar, os filhotes acompanham os adultos por três meses, e já existem relatos de gaviões jovens que ajudam a criar os irmãos mais novos”, diz Andreth. Ainda segundo o biólogo, no final do segundo semestre de 2012, o casal de gaviões se reproduziu novamente gerando 2 filhotes novos.
Com moradores tão especiais no pátio do colégio, não poderiam faltar incentivos para a preservação dos mesmos.  O estudo das aves é parte da grade curricular, e ter os gaviões tão pertinho, possibilita que o estudo seja bem mais atraente. “Os alunos têm a oportunidade de estudar com eles pousados nas janelas, o que cativa o aprendizado”, explica o professor.
As crianças já sabem a lição direitinho e dão aula sobre o assunto: “Aprendemos que a fêmea é maior que o macho”, ensina o aluno Matheus Correa. Já Maria Eduarda Barbosa e Marcela Figueiredo tiveram a chance de ver o instinto familiar dos gaviões em ação. “O filhote caiu no chão do pátio e vimos o papai dele vir buscá-lo de volta para o ninho”.
A conscientização e informação dão às crianças o direito de se maravilhar com cenas tão cotidianas, como o voo da ave. “Quando o vi abrir as asas, nossa! Foi muito bonito”, diz o estudante Lucas Nascimento. E os alunos Roberto Bontempi Filho e Rafaela Jorge dão a dica. “Se nós não preservarmos essa espécie de gavião, ele ficará extinto para sempre e nunca mais voltará para a natureza”.

 
Conhecer para preservar
Os gaviões asa-de-telha são assim chamados devido à coloração de suas asas. Seu porte é médio, atingindo de 48 a 56 cm e sua envergadura pode chegar a 115 cm, sendo a fêmea bem maior que o macho. Esse porte da fêmea serve para proteger o filhote e também para facilitar a cópula, pois se o macho fosse maior, poderia feri-la com suas garras.
Essas aves de rapina constroem ninhos com ramos e galhos em árvores altas, e botam de dois a quatro ovos por postura. A incubação dura aproximadamente 33 dias e os filhotes são totalmente dependentes dos pais para a alimentação. Após 40 dias, os filhotes abandonam o ninho e permanecem junto aos pais por até três meses; seu ciclo de vida pode durar de 20 a 25 anos.
São aves carnívoras e predadoras de topo, logo, não são conhecidas ameaças para os indivíduos adultos da espécie, exceto os humanos. Os filhotes podem ser atacados por outras aves de rapina enquanto permanecem no ninho à espera de alimento trazido pelos pais.
Os gaviões asa-de-telha são uma das poucas espécies de aves de rapina que caçam em bandos, uma estratégia cooperativa para a captura de presas maiores ou difíceis de ser perseguidas por um único indivíduo, sendo o alimento dividido após o abate. Alimentam-se principalmente de pequenos vertebrados como gambás, serpentes, roedores, filhotes de guarás, garças e socós e, no caso das cidades, pombos. Estima-se que num voo de caça, atinjam velocidades de 60 a 80 km/h.
 
Curiosidade
Os gaviões asa-de-telha, embora arredios, podem ser adestrados se treinados desde muito jovens, com cerca de três a quatro semanas de vida, e aprendem rapidamente sinais de comando. No arquipélago de Fernando de Noronha, Helô, Lina e Taka, três fêmeas asa-de-telha foram convocadas para uma missão: ajudar no controle populacional das garças-vaqueiras, afugentando-as ou, em alguns casos, capturando-as. Sem predadores no local e com alimentos fartos, essas graciosas garças invasoras representam riscos para a aviação e fauna local.

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